Dezenas de moradores de São Paulo estão relatando perda ou substituição indevida de fotografias pessoais armazenadas em plataformas digitais após um problema técnico conhecido como duplicate image replacement — quando algoritmos de deduplicação apagam arquivos originais ao identificá-los erroneamente como cópias redundantes. O problema afetou usuários de diferentes bairros da cidade ao longo da última semana, com registros concentrados entre os dias 28 de junho e 3 de julho de 2026.
O momento é particularmente sensível. O Brasil encerrou em maio de 2026 o prazo de adequação à segunda fase da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que amplia obrigações de empresas quanto à integridade e à disponibilidade de dados pessoais. Para especialistas em direito digital, falhas de deduplicação em massa podem configurar violação passível de sanção pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), sediada em Brasília, dependendo da extensão do dano e da conduta das plataformas após o incidente.
Da Vila Madalena ao Capão Redondo, histórias de arquivos perdidos
Na Vila Madalena, zona oeste da capital, moradores de um coletivo de fotógrafos independentes que opera no espaço cultural Beco do Batman descrevem a perda de portfólios inteiros. Uma fotógrafa freelancer que registrava casamentos na Grande São Paulo afirmou, em postagem no Instagram, ter perdido mais de 4 mil imagens de clientes dos últimos três anos — arquivos que estavam sincronizados em serviço de nuvem e que foram substituídos por versões em baixa resolução ou simplesmente apagados. Ela não foi identificada nesta reportagem a pedido próprio.
No Capão Redondo, bairro da zona sul com alta densidade populacional e forte presença de pequenos negócios informais, relatos similares aparecem em grupos de WhatsApp de comerciantes locais. Donos de salões de beleza e ateliês de costura que usam álbuns digitais para divulgação de serviços no Instagram e no Google Fotos relatam ter encontrado imagens de produtos substituídas por fotos genéricas ou completamente removidas. Para esses trabalhadores, o portfólio digital é o principal canal de captação de clientes.
O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), com sede na Rua Apinajés, no Sumaré, confirmou ter recebido registros sobre o problema e orienta consumidores a documentar os danos antes de acionar plataformas ou o Procon-SP. O Procon paulistano, localizado na Rua Barra Funda, já registrava, até o fechamento desta edição, um volume acima da média de reclamações relacionadas a serviços de armazenamento digital no mês de junho — embora não tenha divulgado número consolidado referente especificamente ao episódio desta semana.
O que fazer se você foi afetado
Advogados especializados em direito digital recomendam que usuários afetados tomem três medidas imediatas: façam capturas de tela ou exportem relatórios de atividade das plataformas que comprovem a alteração dos arquivos; registrem boletim de ocorrência eletrônico na Delegacia de Crimes Cibernéticos do Estado de São Paulo, acessível pelo portal da Polícia Civil; e formalizem reclamação junto ao Procon-SP, que pode ser feita pelo endereço eletrônico do órgão sem necessidade de deslocamento físico.
Usuários que pagam por planos premium de armazenamento — no Brasil, serviços como Google One cobram a partir de R$ 3,99 por mês pelo plano de 100 GB — têm base mais sólida para exigir compensação contratual, segundo orientação do Idec. Já para usuários de planos gratuitos, a via mais eficiente tende a ser a pressão coletiva via Procon ou, em casos de perdas expressivas, ação no Juizado Especial Cível.
A Prefeitura de São Paulo, sob gestão de Ricardo Nunes, não se pronunciou sobre o episódio até o fechamento desta edição. O programa municipal SP156, canal oficial de atendimento ao cidadão, não lista categoria específica para reclamações de perda de dados digitais — lacuna que organizações da sociedade civil já apontavam como problema desde a expansão do uso de ferramentas digitais por microempreendedores durante a pandemia. Usuários afetados devem acompanhar os canais oficiais do Procon-SP e do Idec para orientações atualizadas nas próximas 48 horas.