Moradores de SP Relatam Prejuízos e Confusão com Imagens Duplicadas em Cadastros Digitais
Comunidades da Zona Leste à Vila Madalena denunciam erros de identidade digital que travam acesso a serviços públicos e benefícios sociais.
Comunidades da Zona Leste à Vila Madalena denunciam erros de identidade digital que travam acesso a serviços públicos e benefícios sociais.

Elba Ferreira, moradora do Brás há 22 anos, descobriu em março que seu cadastro no sistema municipal de habitação popular exibia a foto de outra mulher — uma desconhecida que mora a quilômetros de distância, no Jardim Ângela. O erro, gerado por um processo técnico de substituição de imagens duplicadas no banco de dados da Secretaria Municipal de Habitação, suspendeu por 47 dias o acesso de Ferreira ao programa de aluguel social. Ela não é caso isolado.
Relatos de moradores afetados por falhas na chamada substituição de imagens duplicadas — procedimento pelo qual sistemas automatizados identificam e removem fotos repetidas ou conflitantes em cadastros digitais — vêm se acumulando em bairros da Zona Leste, do Centro Histórico e da periferia sul de São Paulo. O problema ganhou urgência porque a prefeitura de Ricardo Nunes acelerou a digitalização de serviços ao longo de 2025, integrando bases de dados de saúde, habitação e assistência social à plataforma SP156. Quando algoritmos de deduplicação erram, moradores ficam travados entre sistemas que se contradizem.
No Complexo do Piolho, conjunto habitacional da Cohab na Cidade Tiradentes — o maior conjunto habitacional da América Latina, com estimativa de mais de 130 mil moradores —, líderes comunitários relatam que pelo menos três famílias perderam acesso temporário a benefícios do Programa Bolsa Família federal após divergências de cadastro biométrico detectadas durante atualização de imagem. A sobreposição entre o Cadastro Único federal e o sistema municipal gerou registros com fotos trocadas ou ausentes.
Na Cohab Itaquera, outro grande conjunto próximo ao Parque Estadual do Carmo, a situação se repete. Moradores descrevem deslocamentos repetidos até o posto de atendimento da Rua Afonso Sardinha para corrigir manualmente dados que o sistema automatizado havia alterado. Cada visita representa meio dia de trabalho perdido — realidade pesada para quem vive de renda informal.
O Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), com sede no Bom Retiro, acompanha casos de imigrantes bolivianos e venezuelanos cujas fotos foram substituídas por imagens de outros usuários durante migração de dados entre sistemas. Para esse grupo, o erro não é só burocrático: pode comprometer documentação de regularização migratória vinculada ao cadastro municipal.
Especialistas em governança de dados ouvidos para esta reportagem — sem vínculo com a prefeitura — explicam que sistemas de deduplicação por similaridade de imagem são projetados para eliminar redundâncias, mas falham quando fotos têm baixa resolução ou foram digitalizadas em condições precárias, como ocorre em mutirões de cadastramento realizados em quadras de escola ou embaixo de viaduto. Em São Paulo, parte dos cadastros do Cadastro Único ainda carrega fotos digitalizadas entre 2010 e 2016, com resolução inferior a 100 pixels de largura.
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), com escritório na Rua Aureliano Coutinho, no Consolação, publicou em junho de 2026 orientação técnica recomendando que municípios com mais de 500 mil cadastros ativos adotem auditoria humana obrigatória antes de confirmar qualquer substituição automática de imagem. O documento cita São Paulo explicitamente como um dos contextos prioritários para revisão, dada a escala da base de dados municipal — que supera 4 milhões de registros ativos no SP156.
Para quem já foi afetado, o caminho mais rápido continua sendo o comparecimento presencial ao CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) do bairro de origem, levando RG, CPF e comprovante de residência atualizado. A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social mantém 46 unidades do CRAS distribuídas pela cidade — o mais próximo da Cidade Tiradentes fica na Avenida Ragueb Chohfi. Moradores da Zona Sul podem recorrer à unidade do Grajaú, na Estrada do M'Boi Mirim.
A prefeitura de São Paulo não respondeu a pedido de comentário enviado na tarde de sexta-feira sobre o número total de cadastros afetados por substituições incorretas de imagem. Enquanto a resposta não vem, são os moradores que carregam o peso do erro — de documento em mão, fila a fila.
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Published by The Daily São Paulo
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