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Décadas de Promessas Não Cumpridas: Como São Paulo Chegou à Maior Expansão de Transporte de uma Geração

Uma cidade estrangulada pelo trânsito desde os anos 1970 avança agora com extensões do metrô e melhorias nos corredores de ônibus, mas chegar até aqui exigiu um longo e doloroso acerto de contas com décadas de fracasso político.

Por São Paulo News Desk · Publicado em 24 de julho de 2026

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Como apuramos esta matéria

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At São Paulo 2018
At São Paulo 2018. Photo: Photograph by Mike Peel (www.mikepeel.net). / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A prefeitura de São Paulo confirmou nesta semana que as obras de extensão da Linha 6-Laranja do metrô, que vai de Brasilândia, no extremo norte, até São Joaquim, no centro histórico, entrarão em sua fase final até o fim de 2026, com previsão de início das operações comerciais para meados de 2027. Ao mesmo tempo, a Secretaria Municipal de Transportes acelerou um programa paralelo de faixas exclusivas para ônibus em 14 corredores, com a Radial Leste e a Avenida dos Bandeirantes como eixos prioritários. Juntos, os dois projetos representam o maior investimento único na infraestrutura de transporte público da cidade desde a expansão da Companhia do Metropolitano de São Paulo, conhecida por todos como Metrô, nos anos 1990.

O momento não é coincidência. Somente em 2024, São Paulo perdeu cerca de R$ 133 bilhões em produtividade por causa dos congestionamentos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. O passageiro médio da zona leste, nos bairros de Itaquera, Guaianases e Vila Prudente, gasta cerca de duas horas e quarenta minutos por dia em deslocamentos, boa parte deles em ônibus lotados da SPTrans enfileirados em vias sem faixas exclusivas. O prefeito Ricardo Nunes, de olho nas eleições municipais de outubro de 2028, apostou uma parcela significativa de seu legado em apresentar resultados concretos antes que os eleitores voltem às urnas.

Uma Cidade Construída para o Carro, e Quem Decidiu Isso

A relação de São Paulo com o automóvel não surgiu naturalmente. Foi uma escolha deliberada. A gestão de Prestes Maia, nos anos 1930 e 1940, traçou o sistema viário radial-perimetral que ainda orienta a lógica das avenidas da cidade até hoje. A Avenida Paulista foi alargada para os carros. O Minhocão, o Elevado Presidente João Goulart, em Santa Cecília —, inaugurado em 1971, foi projetado para fazer os veículos cortarem o centro da cidade às claras custas de pedestres e moradores. As redes de ônibus foram se expandindo de forma desordenada, sem nenhum órgão coordenador, até a criação da SPTrans em 1995.

O investimento no metrô ficou ainda mais para trás. A Linha 1-Azul, o primeiro trecho norte-sul inaugurado em setembro de 1974, foi a única linha em operação por quase uma década. Em 2000, a rede contava com apenas quatro linhas e cerca de 61 quilômetros de trilhos, algo risível para uma cidade de 10 milhões de habitantes que já era a maior do Hemisfério Sul. Governos estaduais sucessivos, que detêm a jurisdição sobre o Metrô por meio das concessões do Metrô e da CPTM, preferiram investir na ampliação das rodovias. O Rodoanel Mário Covas, anel viário que contorna a região metropolitana, absorveu bilhões em recursos estaduais ao longo dos anos 2000. As propostas de corredores de ônibus expressos foram engavetadas repetidamente.

O Que Mudou, e o Que Ainda Precisa Mudar

O ponto de virada veio depois de junho de 2013. Os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus, deflagrados naquele mês após um reajuste de R$ 0,20 e protagonizados em confrontos na Avenida Paulista e no Viaduto do Chá, sacudiram todas as camadas da classe política paulistana. O então prefeito Fernando Haddad recuou no reajuste poucos dias depois. Com efeito mais duradouro, o episódio forçou o reconhecimento de que o modelo de transporte da cidade estava quebrado, e de um jeito que afetava milhões de trabalhadores comuns, não apenas uma minoria politizada.

O apoio federal do governo Lula, que voltou ao poder em janeiro de 2023, foi decisivo para destravar os recursos. O Programa de Aceleração do Crescimento 3, lançado em 2023, destinou R$ 2,6 bilhões para projetos de mobilidade urbana na região metropolitana de São Paulo, com a Linha 6-Laranja e o corredor Expresso Tiradentes entre os beneficiários expressamente citados. O governo estadual de Tarcísio de Freitas, apesar das tensões políticas com Brasília, manteve o processo de concessão do Metrô em andamento, com a CCR Metrô São Paulo como operadora privada das Linhas 4, 5 e 6.

Para quem usa o transporte público, a pergunta prática é mais direta: quando a viagem de Brasilândia até a Consolação vai levar menos de noventa minutos? Se o prazo de 2027 for cumprido, a resposta é: em breve. Moradores do entorno da Linha 6, em Água Branca e Pompeia, já assistem ao surgimento dos tapumes ao redor das novas estações. A SPTrans se comprometeu a publicar dados atualizados sobre a frequência dos ônibus em seu portal de dados abertos até setembro de 2026, o que permitirá que pesquisadores independentes verifiquem se as melhorias nos corredores estão de fato reduzindo os intervalos entre as viagens. A cidade prometeu desta vez. A cidade já prometeu antes.

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